Uma mobilidade capenga

Certamente os brusquenses receberam com satisfação a notícia das reuniões do Executivo municipal com diferentes entidades de classe da cidade, a fim de elaborar um planejamento estratégico que, sob o codinome de “Brusque 2030”, visa melhorar a vida na cidade, bem como prepará-la para o futuro.

Segundo o ranking nacional da competitividade dos municípios acima de 80 mil habitantes, Brusque ocupa a 77ª posição, tendo o projeto “Brusque 2030” estipulado a meta de catapultar a cidade para dentre as primeiras 50 posições do ranking, até o final da década.

Para que os projetos possam sair do papel e se transformar em realidade, as administrações municipais, a atual e as futuras terão que trabalhar com afinco e “know how” de ponta, principalmente para solucionar “pepinos” pendentes, a maioria de natureza estrutural, herança de administrações anteriores “cuca fresca”, que preferiram investir em obras palpáveis e visíveis, talhadas para aplausos eleitoreiros, ignorando que os mais importantes componentes para o funcionamento de uma cidade moderna encontram-se a alguns palmos abaixo do solo em que pisamos.

Vejo a mobilidade urbana brusquense, comumente tratada com criatividade menor pelas autoridades competentes, como um dos pontos mais vulneráveis do projeto “Brusque 2030” e consequentemente um dos maiores desafios para a administração da cidade.

Esparadrapo, compressas e mercúrio cromo não surtirão efeito nesta complexidade que vai exigir decisões corajosas e ações revolucionárias para aprimorar o que já existe e oferecer novas alternativas de transporte a todos os segmentos da sociedade.

Não deixa de ser curioso que os brusquenses adorem gastar dinheiro e solas nas esteiras das academias e nas calçadas da Beira Rio, mas se neguem a caminhar até os seus locais de trabalho.

Neste contexto, Brusque continua totalmente focada no uso do automóvel, que além de um meio de transporte, é considerado um cartão de visita, comprovante do sucesso material do proprietário. Desta forma, temos veículos demais circulando por nossas ruas e ruelas, a maioria inadequada ao tamanho e peso dos veículos da moda e causa de frequentes estrangulamentos nas vias públicas.

Além do mais, faltam estacionamentos públicos e os que existem são caros, o que, com o raiar do dia, transforma a cidade numa gigantesca garagem, o que certamente não contribui para que o trânsito flua com mais tranquilidade.

O serviço de ônibus disponível serve a periferia, com algumas linhas permanentemente abarrotadas, sem proporcionar o menor conforto, sendo que a cidade ainda não apresentou opções alternativas de transporte, que motivassem a classe média urbana a deixar o carro na garagem.

Creio que as autoridades responsáveis têm dado pouca atenção à bicicleta, alternativa de transporte altamente valorizada nos países do primeiro mundo, principalmente por não atravancar o trânsito, não poluir a atmosfera, ser de manutenção barata e seu manuseio contribuir favoravelmente para a saúde dos usuários.

Ciclistas existem aos milhares em nossa cidade, o que falta são ciclovias, o que obriga os que pedalam a perigosas manobras entre os carros em movimento ou a ousados malabarismos nas calçadas, colocando em risco os pedestres que por ali circulam.

Para amenizar futuros transtornos em nossa complexa mobilidade urbana, nada mais urgente e necessário do que a instalação de ciclovias nas ruas e avenidas mais importantes da cidade.

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