O regime vai pra escola

O atual inquilino do Planalto jamais fez segredo de que Educação e Cultura não faziam parte da lista de prioridades de seu governo, possivelmente por confiar na fórmula de que quanto mais desinformada a população mais fácil será manipulá-la.

Quatro ministros da Educação despreparados para a função, o incompreensível rebaixamento de nosso Ministério da Cultura para um penduricalho do Ministério do Turismo, o corte de verbas das universidades federais, institutos de pesquisa e museus produziram um cenário de penúria que suscita o temor de que gerações futuras poderão voltar a assinar os documentos de praxe com o polegar da mão direita.

Nada de realmente relevante aconteceu na esfera da Educação nestes dois anos e meio de Bolsonaro no poder, salvo dois projetos na educação básica que deverão servir de trampolim para a difusão da visão do mundo do regime.

As escolas cívico-militares remontam aos primórdios da atual gestão. No dia a dia são mais militares do que civis, pois costumam impor regras rígidas de conduta, como o corte de cabelo padrão, uniforme similar à PM, e hasteamento da bandeira diariamente, antes de marchar para a respectiva sala de aula. Demonstrações de afeto também não são bem-vistas.

Segundo o MEC, 25 estados já aderiram ao programa, sendo que em nosso estado já abrigamos cerca de 12 escolas deste modelo.

Apesar dos bons resultados pedagógicos obtidos, professores civis reclamam com maior frequência da interferência das fardas em sua metodologia de ensino, o que acaba fortalecendo a militarização escolar em detrimento de uma educação democrática e participativa.   

Recentemente, a administração de uma Escola Cívico-Militar no Rio de Janeiro foi suspensa por obrigar os alunos perfilados no pátio, repetir as palavras lidas por um adulto: “muitos querem, mas não podem, nós queremos e podemos, nós somos nós e o resto é o resto, Brasil acima de tudo, abaixo de Deus”.

É o bolsonarismo em ação!

O segundo projeto desenvolvido pelo governo Bolsonaro é o chamado “Homeschooling”, o ensino domiciliar, já mencionado em sua campanha eleitoral. Nesta modalidade de ensino, os pais são os responsáveis pela educação dos filhos, mas eventualmente poderão contratar um professor para auxiliá-los na tarefa.

O material didático viria do Ministério da Educação e os controles e a parte burocrática deverão ficar sob a responsabilidade das Secretarias de Educação municipais.  

O ensino domiciliar não constitui uma novidade em nosso país, mas até o presente, carecia de oficialização. Volta agora, com roupagem jurídica nova, sob intensa pressão de grupos evangélicos e apoiadores ultraconservadores de Bolsonaro, que querem distância das escolas “progressistas”, das aulas de educação sexual, da suposta erotização das crianças, dos “gêneros” e por aí afora. 

Por mais que me esforce, não consigo me entusiasmar por este projeto político de DNA bolsonarista, que por uma eventual evasão escolar poderá prejudicar seriamente o sistema educacional vigente. Também creio que privar os jovens da saudável socialização escolar certamente não contribuirá para um saudável desenvolvimento dos adolescentes que conduzirão o país no dia de amanhã.

Restam algumas perguntas fundamentais, ainda sem resposta:  terão os pais tempo suficiente para a gigantesca tarefa? Estarão preparados didática, cultural, técnica e emocionalmente?

Creio que o governo faria melhor em utilizar esforços e verba para aperfeiçoar o que já existe.

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