Tribos em guerra

Sem a menor dúvida, a torcida apostava que o encerramento das festas de momo representaria o início deste capítulo fundamental para a nossa sobrevivência, ou seja, a aprovação das reformas pelo Parlamento.

A expectativa revelou-se um ledo engano, pois ao invés de mergulhar profundamente em febris conchavos que facilitassem a travessia da matéria pelos meandros do Congresso, a nomenclatura brasiliense brindou-nos com uma série de equívocos, que acabaram criando um clima totalmente adverso à aprovação de qualquer proposta governamental pelo Congresso.

Um dos pomos da discórdia deu-se em torno da titularidade da articulação política para a aprovação das reformas. Aparentemente querendo isentar-se da responsabilidade de um eventual fracasso na aprovação pelo Congresso da Reforma da Previdência, Bolsonaro divulgou que “a bola agora está com o Rodrigo Maia. Já entreguei o projeto, o compromisso é dele e a responsabilidade é do Parlamento”.

Obviamente, o presidente da Câmara ficou uma onça, respondendo que “Bolsonaro não pode terceirizar a articulação política pois é tarefa do Planalto buscar maiorias” e negando-se a assumir esta responsabilidade.

De volta dos EUA, onde, em estado de graça, prostrou-se aos pés de seu ídolo Donald Trump, o presidente ratificou e enviou ao Congresso o projeto da previdência dos militares, extremamente mal-recebido por amplos setores do governo e da população, pois cobre de privilégios a classe militar, enquanto cobra sacrifícios da sociedade civil. Inaceitável.

Ao invés de assumir as rédeas para debelar a crise que borbulhava, o presidente viajou ao Chile para visitar o seu irmão de fé Sebastian Piñera.

Enquanto isto, na capital federal, o ministro da Justiça, Sergio Moro, cutucou com vara curta o presidente da Câmara Rodrigo Maia, reclamando da morosidade na tramitação de seu pacote anticrime na Câmara. Maia replicou, cheio de ironia, que “o pacote de Moro, cópia fiel do projeto de Temer, não teria prioridade sobre análise do pacote da Previdência, conforme combinado com o presidente da República.”

Clima de limonada sem açúcar.

A prisão do ex presidente Temer, do ex governador Moreira Franco (sogro de Rodrigo Maia), a queda de 15 pontos percentuais na popularidade de Bolsonaro, a queda da bolsa de valores e a valorização excessiva do dólar americano só contribuíram para aumentar o clima de perplexidade reinante na capital federal, palco de uma feroz luta pelo poder que tomou conta das instituições federais e paralisou todo o aparato estatal, que nada de relevante conseguiu apresentar nestes três meses iniciais de governo.

É mais do que visível que uma nuvem de ódio e rancor paira sobre nossas cabeças, disseminada principalmente pelas redes sociais.

O presidente parece sentir-se confortável na situação pois está mais interessado em desconstruir ideologicamente o país (palavras dele num jantar em Washington) do que investir pesado no futuro, ou seja, na aprovação das reformas.

Temos certeza de que o único remédio capaz de curar o país é o diálogo franco, honesto e construtivo com todos os segmentos políticos, inclusive a oposição, e não somente aquele costumeiro monólogo com a sua turma de seguidores fanáticos que, sem pestanejar, se jogariam com ele num precipício, entoando “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas”.

Seria útil não esquecer que a maioria da população não morre de amores por Bolsonaro: 57 milhões votaram no mito, enquanto 89 milhões preferiram Haddad ou o voto branco ou nulo.

Torço que o presidente assuma de fato as rédeas do poder, mas não através do twitter ou de seus filhos. Que abrande o seu fundamentalismo ideológico, que até o momento tem orientado os rumos do país, e se proponha, em nome da governabilidade, a uma composição sem preconceitos com as forças políticas do país.

Se o governo federal continuar desgovernando com este amadorismo, não se manterá por muito tempo. E não será por culpa da oposição.

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