Num beco sem saída

A poucos dias das eleições, o panorama que se oferece aos eleitores não é dos mais animadores. Refiro-me ao segundo turno onde, se nenhum acontecimento fora do contexto alterar os prognósticos das pesquisas, não nos restará outra alternativa do que optar entre o roto e o rasgado, entre a esquerda e a extrema direita, entre dois políticos que, a meu ver, não tem a competência para devolver ao país a prosperidade e a tranquilidade política que o Brasil tanto necessita.

Encaro as eleições de outubro com enorme frustração a grosso modo não discutiu-se planos ou projetos, limitando-se os candidatos a demonizar seus adversários, privando-nos, consequentemente, de razões consistentes que justificassem o nosso voto.

Decididamente, esta eleição tornou-se ideológica e emocional, estando boa parte da população mais para torcida de futebol do que para um eleitorado consciente.

À esquerda do espectro político encontra-se Fernando Haddad, representante de Lula e candidato do PT que, se eleito, deverá dar continuidade à política social de seu mentor. O ônus de sua candidatura consiste na herança deixada por governos petistas anteriores, causa da maior crise econômica já vivenciada pelo país, bem como pela depauperação ética e moral que se abateu sobre o Brasil.

À direita do espectro vemos Jair Bolsonaro, do PSL, que preenche todos os requisitos de um político da extrema direita que se preze: agressivo, truculento, preconceituoso e radical, não toma o menor conhecimento das lides democráticas em vigor. Excêntrico, já falou em matar a petralhada a tiros, fuzilar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, fechar o Congresso, dar um autogolpe e mesmo preso a uma cama de hospital, não hesitou em pousar de Schwarzenegger, fuzil imaginário nas mãos, e pronto para dar o tiro fatal.

Sem dúvida, o candidato representa uma permanente apologia à violência e não causa estranheza que o renomado veículo “The Economist” veja nele “a mais recente ameaça na America Latina”.

O permanente ‘tête a tête” do candidato com as Forças Armadas, não deixa de ser um perigo ao sistema democrático em vigor. Sem pudor, glorifica o Regime Militar de 1964 e seu torturador mór, coronel Ustra, passou a ser seu herói maior. Já hospitalizado, gravou um vídeo onde adverte sobre uma eventual vitória petista nas eleições de outubro e pergunta: ‘Meus amigos das Forças Armadas, quem será o Ministro da Defesa de vocês? Quem será o nosso ministro?”

O vídeo nos mostra o desprezo pelas regras democráticas do candidato, e serve de alerta para o que poderá nos aguardar num futuro próximo.

Ávido pelo poder mostrou-se o vice de Bolsonaro, o general da reserva Hamilton Mourão. Imediatamente após a hospitalização do presidenciável, esta anacrônica figura assanhou-se, arregaçou as manguinhas, encheu-se de ares presidenciáveis e começou a dar entrevistas como se agora fosse ele o titular, inclusive, solicitando ao TSE sua participação nos debates televisivos dos presidenciáveis.

De imediato, Bolsonaro deu-lhe um “chega pra lá”, que veio em dose dupla, o outro endereçado ao seu “guru” na economia, Paulo Guedes, que numa reunião aventara um eventual retorno da CPMF. Ambos receberam ordem de fechar a boca e congelar as respectivas campanhas.

O episódio Guedes não deixa de ser preocupante, pois nos mostra que o líder nas pesquisas ainda não montou nem costurou um plano econômico para enfrentar os imensos desafios que um eventual governo Bolsonaro deverá enfrentar.

Mas tudo isto não preocupa muito seus fiéis seguidores que nele enxergam o Salvador da Pátria, que vai livrá-los do PT, do Lulismo e da corrupção, trazendo de volta aos lares a segurança, problema que atormenta demais a população.

Lamentavelmente, nos faltou nesta eleição aquele candidato do centro, moderado e democrata, disposto a dialogar e apaziguar os ânimos e pacificar a nação.

Vença quem vencer, teremos barulho e alguma intranquilidade, pois os ânimos estão acirrados demais para que se reconheça, com elegância democrática, a vitória eleitoral do oponente. Só nos resta torcer para que o barulho não seja alto demais para que as Forças Armadas se sintam motivadas a intervir, para instalar-se novamente e comandar os destinos do país.

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