O presidente e o vírus

Há muito não é mais segredo para ninguém que o nosso presidente Jair Bolsonaro é mestre em conquistar manchetes nos mais importantes veículos da imprensa no Brasil e no mundo. As suas posturas polêmicas, mormente na contramão dos usos e costumes vigentes nas democracias ocidentais, costumam render-lhe avaliações normalmente distantes anos-luz daquilo que a maioria dos brasileiros gostaria de ler sobre seu presidente.

Ainda agora, em plena vigência da pandemia da Covid-19, surpreendeu desagradavelmente a população e o mundo científico ao despedir o seu eficaz e popular ministro da saúde, Luis Henrique Mandetta, não só por discordar da fórmula ministerial para derrotar o vírus, mas também por motivos menos nobres, como a inveja e a ciumeira da popularidade de seu ministro.

Narcisista e egocêntrico, Bolsonaro é incapaz de administrar o fato de que alguém de sua equipe possa brilhar mais do que ele, sendo a “estrela” imediatamente demitida, como Mandetta, ou condenada a um mandato inodoro, como Sergio Moro.

O plano do governo Bolsonaro para enfrentar o coronavírus foi concebido por Mandetta, seguindo rigorosamente as recomendações da Organização Mundial da Saúde, fazendo do isolamento social a viga mestra contra a contaminação desenfreada, que levaria a um inevitável colapso a nossa já fragilizada infraestrutura hospitalar.

Nem 24 horas haviam passado do lançamento e o nosso imprevisível presidente já vociferava contra este importantíssimo projeto de seu próprio governo. Posicionou-se contra o isolamento horizontal, somente os idosos deveriam ficar em casa. Advogava a volta imediata ao trabalho e a reabertura das escolas, pois os jovens seriam imunes ao vírus.

Explica-se: Bolsonaro é um dos quatro chefes de Estado mundiais “negacionistas”, que consideram o vírus uma “gripezinha que não faz jus à histeria que em torno dela se criou.”

Vale salientar que a postura anti-isolamento do presidente tem seus objetivos eleitoreiros: não quer ser penalizado nas eleições presidenciais de 2022 por um apoio ao isolamento social que inevitavelmente causará um forte desaquecimento econômico no país no período pós-vírus.

Apesar dos óbitos em todos os estados da federação e da situação dramática da rede hospitalar em Manaus, Recife, Belém, São Paulo e Rio de Janeiro, o presidente continua dando um mal exemplo, batendo de frente com as recomendações de seu próprio ministério e da OMS, circulando por Brasilia sem máscara, abraçando correligionários, frequentando padarias, tossindo e enfiando o dedo no nariz. Irresponsabilidades que contribuíram para que o prestigioso jornal “The Washington Post” considerasse o presidente brasileiro “o caso mais grave de improbidade administrativa da crise da Covid-19 entre os líderes mundiais”.

O novo ministro da Saúde, o renomado oncologista Nelson Teich, já tomou posse e, até o momento, nada revelou sobre os rumos que pretende imprimir na luta contra o coronavírus. Nos diz a lógica, no entanto, que deverá alinhar-se à visão do presidente, que já escolheu para o importante cargo de secretário-executivo do Ministério o general da ativa Eduardo Pazuello, atual comandante da 12ª Região Militar da Amazônia, que é especialista em logística, mas não entende nada de saúde.

As posturas de confronto e o descaso do presidente pelas regras estabelecidas fazem escola até aqui. Em nossa cidade tivemos um lapidar exemplo nos dias que antecederam a Páscoa: em plena vigência do isolamento, eis que surge a notícia de que estabelecimentos comerciais com estoque de chocolate poderiam abrir suas portas para desová-lo, o que logo se transformou em “compre um ovinho e leve o que seu coração desejar e a carteira permitir”.

Além de burlar o isolamento que visa evitar a formação de aglomerações, esta regra de exceção não deixou de ser uma baita injustiça com a quase totalidade do comércio local, que teve que ficar em casa, chupando o dedo.

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