Demolindo a nossa história

Brusque sempre foi muito valorizada pelos visitantes que, no auge da era têxtil, sentiam-se atraídos por nossas ruas arborizadas, pelas imponentes mansões e os luxuriantes jardins que os circundavam, pela tradicional Festa da Azambuja, que atraia milhares de fiéis católicos dos mais recônditos rincões do estado, pelas lojas de nosso parque fabril, que ofereciam a preços reduzidos os cobiçados tecidos “made in Brusque”, como também pela confeitaria Koehler, famosa pela qualidade de sua doçaria, o tempero de suas empadas, o brilho de seus copos e a imaculada brancura dos uniformes de suas funcionárias.

Com o passar dos anos, a nossa cidade passou por uma profunda transformação, pois enquanto que de um lado as grandes e tradicionais fábricas têxteis fechavam os portões definitivamente, no outro, se desenvolvia uma paulatina destruição de nosso parque arquitetônico, prova inconteste das nossas origens europeias e da pujança têxtil de nossa cidade.

Vítimas de um verdadeiro frenesi de demolições, casas e mansões de valor histórico, foram cedendo lugar a arranha céus e caixotes com vitrines para uso comercial, o que levou o poder público local a incumbir o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico (Comupa) a inventariar todos os imóveis de cunho histórico e cultural para garantir-lhes a sobrevivência e assim preservar a identidade de nossa cidade.

O Comupa tinha o seu famoso catálogo com 55 imóveis, “tombados e imexíveis”, o que certamente não entusiasmou alguns proprietários que, já na terceira idade e despreparados para enfrentar os altos custos de manutenção das velhas propriedades, já haviam se rendido aos demolidores, que além de um significativo depósito no banco, acenavam com uma vida sem problemas, num espaçoso apartamento, munido com as facilidades e os confortos do século XXl.

Não obstante as restrições do Comupa, as demolições continuaram a todo vapor, levando a prefeitura a divulgar um novo catálogo de “imóveis protegidos”, sendo que dos 55 catalogados em 2021, 41 foram removidos, nos levando a crer que perderam o seu valor histórico em pouco tempo.

Continuam no catálogo a Igreja Luterana do Centro, a Igreja Matriz, o Complexo Azambuja, antiga Maternidade, o Clube Paysandú, o Clube Caça Tiro, Casa de Brusque, a Villa Quisisana, uma casa Enxaimel na rua São Pedro, o Casarão Hort e o prédio da antiga prefeitura.

O Ministério Público de SC considerou o “imbróglio” local deveras estranho e resolveu intervir, argumentando “que é possível concluir que o município de Brusque não possui critérios pré-definidos para avaliação de bens que devem ser tombados em razão de sua relevância histórica e cultural “, salientando ainda que “a prefeitura faz o caminho inverso da proteção do patrimônio”. Nada temos para discordar.

A exclusão da Villa Gouki, residência do Cônsul Carlos Renaux na rua Primeiro de Maio, se deu alegadamente por se encontrar “sub judice”, ou seja, em disputa judicial por sua posse, travada entre a massa falida da Fábrica Renaux e o herdeiro de Maria Luiza Renaux, Victor Hering.

Na ação, o Ministério Público ainda pede a suspensão do atual catálogo, devolvendo a proteção aos imóveis constantes na relação de 2021. Outrossim, solicita ao Instituto Brusquense de Planejamento e Mobilidade, não conceder novas autorizações para demolições, além de suspender eventuais pedidos em tramitação.

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