A suástica entre nós

O sempre bem informado Raul Sartori nos informou recentemente em sua coluna da existência de aproximadamente 530 células neonazistas em nosso estado, uma conclusão do seminário “Discurso do ódio e do enfrentamento”, realizado em Brasília, sob os auspícios do Ministério Público Federal.

A notícia não deixa de ser chocante, mas não surpreendente, pois Santa Catarina sempre foi solo fértil para ideias conservadoras, e o que é grave, uma incubadora para teses totalitárias, as de Hitler inclusive, o que segundo os historiadores seria uma herança dos valores éticos, morais e culturais dos imigrantes alemães que por aqui aportaram na segunda metade do século XIX.

Os teutônicos sempre preferiram viver em comunidades fechadas, cultivando a sua língua, religião, hábitos culturais, disciplina e amor ao trabalho, numa verdadeira redoma germânica em terra estrangeira.

Desta forma não causa espanto, que o nazismo tenha encontrado um solo fértil em nosso estado, que se tornou o portão de entrada do hitlerismo em nosso país.

As teses nazistas foram recebidas de braços abertos por muitos catarinenses e brasileiros de outros estados, e já em 1928, pouco depois de seu aparecimento, um Partido Nazista do Brasil já contava com 700 membros em Santa Catarina e 7.500 no país, número expressivo, se levarmos em conta que somente alemães natos podiam filiar-se ao partido.

Nosso presidente Getúlio Vargas, apesar de sua incontida admiração pelo partido nazista e seu flerte com o Führer, não titubeou em 1937 em dar o golpe do Estado Novo, proibindo nos primeiros dias de 1938 todos os partidos políticos, inclusive o nazista, o que significou o fim de sua existência oficial no país, mas não o desaparecimento de seus fanáticos seguidores e aficionados.

Em 1938, o Führer lança o programa “Heim ins Reich” (de volta ao lar, em tradução livre), endereçado à etnia alemã que vivia fora do Reich, com o objetivo de fazê-los voltar para a casa de seus antepassados, com as promessas de regalias e facilidades futuras.

O “convite” causou furor no Vale do Itajaí, e também em Brusque afivelaram-se malas para a grande jornada, que para muitos não teve retorno, vitimados que foram pelos horrores da Segunda Grande Guerra.

Com a declaração de guerra de nosso país ao Eixo, em agosto de 1942, inicia-se um período de intenso sofrimento para os descendentes de alemães, italianos e japoneses que, privados de sua língua, escolas e serviços religiosos, frequentemente são alvos de ataques racistas de conterrâneos brasileiros, tudo controlado rigidamente pelas autoridades locais, especialmente rigorosas em Santa Catarina onde o interventor nomeado, o catarinense Nereu Ramos, não gostava de alemães, fazendo o possível e o impossível para azucrinar a vida deles.

Conta-se que destacou policiais para a praia de Cabeçudas, a fim de controlar “aqueles nazistas ricaços de Blumenau e Brusque, que vivem mandando mensagens aos submarinos alemães que cruzam a baía”.

Em Brusque despachou 14 capitães de indústria para o xilindró, por suposta espionagem para o Reich. O episódio teve a famosa “Dama da Noite”, Fanny, como coadjuvante que, montada num pangaré (havia racionamento de combustível), levava colchões e frutas para os presos, dos quais seis foram transferidos para o campo de concentração da Trindade em Florianópolis

Com a eleição de Bolsonaro, a direita brasileira, frustrada por décadas de inatividade, saiu do armário ao mesmo tempo, causando com o ranger das portas um barulho ensurdecedor, que deixou milhões de brasileiros sem dormir por várias noites.

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