O salvador

Há dias inaugurou-se com pompa, circunstância e foguetório na avenida Beira Rio um outdoor do presidenciável Jair Bolsonaro, portador dos anseios de boa parte da população, e que o identifica como o homem escolhido pela providência para recolocar o Brasil na trilha da Ordem e do Progresso. Até o Hino Nacional foi entoado com entusiasmo e fervor pelos presentes, com melodia providenciada por um carro de som previamente encomendado.

Louvavel o número de jovens que compareceram ao evento bem como a aparente disposição de engajar-se num projeto político. Preocupante, no entanto, as exageradas expectativas colocadas nesta eventual candidatura presidencial, expectativas que se fer eleito, poderão transformar-se em frustração num curto espaço de tempo.

Os seguidores de Bolsonaro vêem nele um super-homem, que com suas luvas de boxe e com as Forças Armadas na retaguarda, teria condições de recolocar o país nos eixos, num abrir e fechar de olhos. Ledo engano.

Reza o ditado que “uma andorinha sozinha não faz o verão”. Assim também, um presidente da República, por melhor que seja, não terá condições de desentortar sozinho o que torto está. Suas reformas sempre dependerão de um Congresso corrupto, majoritariamente voltado aos interesses de deputados e senadores, de um lerdo e anacrônico sistema Judiciário, que comumente beneficia mais os maus do que os bons, bem como terá contra si o gigantesco aparelho da administração pública, que luta incansavelmente contra toda e qualquer reforma que o prive dos benefícios e mordomias de hábito.

Fundamental para o nosso país será escolher, pelo voto, pessoas honestas, capazes e de boa-fé, que possam realizar as imprescindíveis reformas estruturais tão necessárias ao Brasil. Combater a miséria, aprimorar o ensino e aprimorar o Judiciário, tornando-o mais ágil e eficiente e colocando um ponto final na impunidade. Já seriam passos importantes para recolocar o país na trilha dos países de futuro promissor.

Vamos acordar

Num dos últimos dias de fevereiro, os brusquenses tiveram a singular oportunidade de entrar em contato com a filosofia de um novo partido político, o NOVO, num evento realizado nos salões de um hotel da cidade. A direção da nova agremiação reúne um punhado de jovens idealistas e dinâmicos, profundamente comprometidos com a ética e solidários no projeto de transformar para melhor o deplorável cenário político nacional.

Segundo dados da imprensa, cerca de 50 pessoas prestigiaram o evento, o que foi festejado como um grande sucesso pelos organizadores. Em se tratando da acomodada Brusque, até podemos concordar, ainda mais quando sabemos que os concorrentes nos horários são as novelas da Globo e o Facebook.

Por outro lado, porém, não deixa de ser altamente frustrante o fato de que dos 120 mil brusquenses que diariamente arengam contra os poderes constituídos, somente 50 tenham demonstrado curiosidade em descobrir nova trilha que eventualmente poderia transformar a sofrida realidade do país.

Considero a passividade política dos brasileiros, esta inercia física e intelectual, um dos maiores problemas a resolver em nosso país. Acabo de retornar de Nova Iorque, onde tive a oportunidade de presenciar uma mega passeata de 1,8 milhão de cidadãos americanos que com faixas, cartazes e bandeiras protestavam, ao longo da avenida das Américas, contra a politica do presidente Donald Trump. É desta forma que um povo civilizado manifesta os seus desacordos e anseios em sociedades democraticamente organizadas, e é esta participação que deveremos, exercitar para reconduzir o país ao lugar que ele merece.

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