Jair, Neymar e a cadeirinha

Ultimamente ando muito preocupado comigo mesmo. O motivo, felizmente, é trivial, mas nem por isso menos preocupante: a procura de pautas para minha coluna tem-me conduzido com demasiada frequência à figura de Bolsonaro, nosso controvertido presidente, insuperável baú de preciosidades majoritariamente polêmicas, que fazem a festa dos profissionais que cobrem jornalisticamente o cotidiano político da capital federal.

Desalentador seria descobrir-me prisioneiro de uma “obsessão pelo “mito”,,similar à que liga os petistas a Lula e os bolsonaristas ao capitão, mas como inspiração temática, obviamente.

Adoraria discorrer sobre assuntos palpitantes em nossa cidade, que infelizmente são raros, praticamente inexistem. O último evento a merecer ampla cobertura da mídia local foi a vistoria da rachadura no paredão da Beira Rio, realizada pelo alcaide e comitiva. Acontecimento que, a meu ver, dispensa comentários e uma análise mais profunda.

Enquanto isso, nosso presidente continua fonte inesgotável de decisões controversas, a maioria na contramão do “Zeitgeist”, do espírito e valores vigentes no pós-modernismo do século XXI.

Após seis meses no poder, Bolsonaro ainda não conseguiu convencer-me no seu papel de presidente da República de todos os brasileiros, pois continua comportando-se como candidato, faltando-lhe, a meu ver, o espírito pacificador, a inteligência política, a cultura, a sensatez, o equilíbrio emocional, a ponderação e a postura para o cargo máximo que as urnas lhe conferiram.

Não constitui segredo para ninguém que o presidente governa por impulsos, faz projetos de lei e assina decretos ignorando pesquisas, estudos científicos e não poucas vezes a opinião pública.

O que aparentemente influencia as suas decisões é o seu messianismo evangelizador e as injeções intravenosas da ideologia populista da extrema-direita, administradas diariamente por sua prole e pelo guru da família, o ideólogo Olavo de Carvalho.

Ultimamente, Bolsonaro tem produzido algumas medidas que tem preocupado significativas camadas da população, excluindo-se obviamente o seu séquito de fiéis seguidores, que continua considerando um pum presidencial uma lufada de Chanel número 5.

Bolsonaro anda atirando para todos os lados. O seu apoio irrestrito a Neymar, protagonista de um bizarro colóquio erótico em Paris, a súbita declaração de apoio à criação do Peso-Real, moeda única para o Brasil e Argentina (Guedes ignorava o assunto) e o seu recente pacote para o trânsito mostram uma incapacidade de pinçar o prioritário, o que realmente importa, num momento em que o país está virtualmente falido e as reformas cruciais para a nossa sobrevivência caminham a passos de tartaruga, clamando por acirradas negociações políticas com o Congresso.

Encaro seu pacote de medidas para o trânsito com reservas, pois ao invés de disciplinar, facilita a atuação dos maus motoristas. Definitivamente, não representa uma política voltada à segurança da população, a semelhança do recém editado pacote armamentista, que não passa de uma simples transferência de responsabilidade do governo para o cidadão comum que, de trabuco na cintura, deverá tratar de defender-se por conta própria.

As extremamente tumultuadas relações do governo com o Meio Ambiente têm estressado brasileiros e colocado em estado de alerta as instituições internacionais ligadas à preservação da natureza.

Ricardo Salles, ministro da pasta, tem executado com fidelidade canina e disciplina espartana a filosofia ambiental (ou sua ausência) de Bolsonaro, numa política de confronto com todas as instituições responsáveis pela política de preservação ambiental, com evidentes tentativas de desmanchar o Código Florestal vigente, afrouxar as regras do desmatamento e suas multas e refigurar os territórios indígenas, cobiçados pelos poderosos agropecuaristas.

Maio último revelou-se um campeão de desmatamento: 30% superior a maio de 2018, o que equivale ao desmatamento de dois campos de futebol por minuto.

Salles protagoniza no momento uma crise com Noruega e Alemanha, que financiam o Fundo Amazônia criado para preservar as matas nativas (R$ 3 bilhões em 10 anos). Salles manifestou a intenção de utilizar o dinheiro do fundo para outros fins o que gerou a ameaça dos dois países de cortar o financiamento. Mais turbulências à vista.

Concordo com o presidente quando afirma que “os tempos estão difíceis”. Para colaborar, sugiro que todos os brusquenses acendam uma vela na gruta da Azambuja para que tudo termine bem, pois a esta altura, sem Bolsonaro, seria muito pior.

Artigos Semelhantes

  • O Bolsonaro de verdade

    A eleição para as duas casas do Congresso, uma inquestionável vitória política do presidente da República, revelou-se importante não só para nos indicar os rumos da política para os próximos dois anos, mas também para revelar preciosas facetas da “nomenklatura” que detém os fios do poder. Ninguém duvida de que a entronização de Rodrigo Pacheco…

  • Mobilidade imobilizada

    Até que enfim alguém teve a ideia de alertar a administração pública sobre a necessidade de elaborar o Plano de Mobilidade Urbana da cidade, cujo prazo de entrega ao governo federal expira em abril do próximo ano. A proverbial cutucada veio do vereador Paulo Sestrem, que logo após viu aprovado pela Câmara Municipal a sua…

  • O cataclisma do Centro

    A imprensa nos trouxe a boa nova de que em breve a administração municipal daria o seu aval à construção de quatro novas pontes na cidade, com o objetivo maior de otimizar a nossa massacrada mobilidade urbana. A notícia não deixou de causar um considerável impacto nos 134 mil brusquenses que, ainda sensíveis e cautelosos…

  • O presidente que se cuide, pois esta trilha desemboca num precipício!

    Ninguém mais dúvida de que nosso país se encontra em estado de ebulição. Boa parte da população anda desiludida com o governo em Brasília que, apesar dos milhares de óbitos, continua com um militar comandando interinamente o Ministério da Saúde, mostrando-se também ressentida com a falta de uma política unificada e consistente no combate ao…

  • Procura-se um vice

    Outubro já está aí e as convenções partidárias encontram-se em estado de total ebulição, seja para formalizar as candidaturas do partido ou engendrar eventuais coligações que lhes aumente o tempo de exposição no horário eleitoral e lhes amenize a desgastante escalada ao poder. Pelo que podemos observar, o PT ainda está reticente, aguardando uma definição…

  • Sínodo da Amazônia

    Com partes da floresta Amazônica em chamas, a política ambiental do atual governo brasileiro passou a ser questionada e criticada, não só internamente, mas também no exterior, lançando pesadas nuvens sobre a nossa outrora mais do que excelente reputação ambientalista. Passado o pior, o governo, vê-se confrontado com outro desafio: o Sínodo da Amazônia. Este…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *