Encontros e desencontros

Sem dúvida alguma a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República desencadeou um tsunami de otimismo que atingiu boa parte da população, causando prolongados suspiros de alívio do empresariado, uma valorização do nosso real e sucessivas altas na bolsa de valores local.

A rigor, a brilhante vitória do capitão nas urnas de outubro muito mais se deve ao repúdio dos eleitores ao Partido dos Trabalhadores, com sua corrupção sistematizada, à interminável crise econômica e à insegurança reinante do que sua visão do mundo, uma “mèlange” de autoritarismo, obsessão ideológica e um cristianismo fundamentalista resgatado do Velho Testamento.

Em suas alocuções de posse, Bolsonaro prometeu “livrar o país das amarras ideológicas, unir o povo, comprometendo-se-se com uma sociedade sem divisão e discriminação”. Aparentemente já esqueceu o prometido, pois em suas proclamações diárias, continua se comportando como um candidato em campanha, feroz e agressivo, longe da figura pacificadora que o mais importante país da America Latina deseja e merece.

Quando o presidente fala em “libertar o país das amarras ideológicas”, deve estar se referindo à linha de pensamento da esquerda, pois a sua própria ideologia de extrema-direita corresponderia à “verdade absoluta vinda de Deus”.

Assim, o bolsonarismo considera-se o dono da verdade, e com ela vai salvar o Brasil, e quem se colocar contra é do mal, e não quer o bem do país.

Até o momento, o presidente de supostamente todos os brasileiros continua seletivo: estimula rancores contra a oposição, nomeia somente correligionários para postos no governo e ordena a “despetização” do aparelho estatal – até compreensível em posições importantes, mas difícil de justificar pelo radicalismo em setores do segundo e terceiro escalão.

Não poucas vezes, o presidente empossado nos passa a impressão de que “a ficha ainda não caiu”, de que o PT foi derrotado nas urnas, de que a eleição já é coisa do passado, e que agora o negócio é falar pouco e meter a mão na massa.

Sabemos que o fantasma da esquerda estará permanentemente presente na pauta de seu governo, pois representa uma poderosa fonte de seu poder. O fracasso de sua gestão poderia trazer de volta o odiado PT, mensagem sempre mais frequente para atemorizar apoiadores reticentes.

Pelo que se observa, uma “reconciliação nacional”, tão útil para a aprovação das reformas, ainda não encontrou espaço na cabeça do presidente.

Há dias, um repórter da TV alemã, Deutsche Welle, reportara à matriz que “no Brasil está na moda um anti-intelectualismo que lembra a inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Kant”.

O candidato presidencial derrotado Fernando Haddad transcreveu o comentário em sua conta no Twitter e a ira presidencial não se fez esperar.

“Haddad, fantoche do presidiário corrupto, marmiteiro como todos os petistas, fica inventando motivos para a derrota vergonhosa que sofreram nas eleições numa campanha 30% mais cara que a minha.”

A julgar pelo rompante, nosso dignitário ainda não se deu conta do respeito e da compostura que o elevado cargo exige. Além do mais, a sua proclamação de que “Lula vai apodrecer nas masmorras” não combina muito bem com sua propalada carolice e seu mote: “Deus acima de todos”.

Sensato, a meu ver, seria o governo esfriar um pouco este furor ideológico, parar com o desmantelamento do aparelho estatal, engavetar por um tempo Jerusalém e Tel Aviv, azul e cor de rosa, a cruzada contra a Globo e a Folha de S. Paulo, e concentrar as energias no que realmente importa neste momento: tempos melhores na economia e a aprovação das reformas.

O presidente também deveria colocar um ponto final neste festival de egos que prevalece no primeiro escalão: entrevistas e comunicados de seus filhos e de ministros acabam causando trombadas, informações contraditórias, explicações e desmentidos que acabam trazendo um desgaste desnecessário. Uma cláusula de silêncio para toda a equipe!

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