A posse

Num dia abafado, nublado e perpassado de chuviscos e tímidos raios de sol foi empossado, solenemente, o 38º Presidente da República Federativa do Brasil, o capitão reformado do Exército, Jair Messias Bolsonaro. Milhares de apoiadores de todos os recantos da federação lotaram Brasília para festejar “o mito”, agora alçado ao mais importante cargo na nação.

Jamais, em tempo algum, a Capital Federal viu tamanho aparato na segurança, tamanho rigor para proteger quem quer que seja no perímetro da cidade. Para chegar aos gramados dos Ministérios, os visitantes eram submetidos a quatro rigorosas vistorias; o porte de bolsas e mochilas era proibido, bem como objetos de metal e frutas de qualquer espécie.

Atiradores de elite mantinham-se postados nos telhados dos ministérios enquanto que a FAB decretava uma zona de exclusão aérea num raio de 7 km em torno dos ministérios, com autorização expressa de abater todo e qualquer objeto que viesse a desrespeitar a zona de exclusão estabelecida.

Para locomover-se ao Congresso, Bolsonaro acabou optando pelo tradicional Rolls Royce aberto, comumente utilizado nas posses presidenciais desde a ascensão de Getúlio Vargas na década de 1950. Além do futuro presidente, sua esposa e o ajudante de Ordens, o veículo transportava, desta vez, mais um passageiro, o filho do presidente, Carlos, que encarapitado nos fundos do veículo, deve ter causado aguda crise de urticária nos irmãos Flávio e Eduardo, que foram privados desta “boquinha”.

Durante o desenrolar das cerimônias, Bolsonaro sempre passou a impressão de sentir-se desconfortável em seu terno: carrancudo, pouquíssimas vezes brindou-nos com um sorriso. As mulheres, por sua vez, a primeira dama e a esposa do vice, pareciam curtir o momento, apesar dos trajes inadequados para a posse de um presidente. As duas estavam mais para uma festa de casamento ou um aniversário do que para uma sessão solene no Congresso Nacional.

O compromisso constitucional dos eleitos, presidente e vice, aconteceu no Plenário Ulisses Guimarães, o mais espaçoso no Congresso Nacional, numa sessão presidida pelo senador Eunicio de Oliveira. O PT e aliados boicotaram a posse presidencial, imperdoável, num momento em que necessitamos de uma união nacional para tirar o Brasil do buraco. Não é desta forma que funciona o sistema democrático, que valoriza uma oposição, mas jamais uma oposição sistemática e burra.

Bolsonaro e Mourão assinaram os termos de posse com canetas BIC, aquelas de plástico, transparentes com tampinha colorida. Nunca assistiu-se coisa mais cafona numa posse presidencial. Se planejado e proposital, o ato nada mais representa do que populismo tosco e rasteiro, capaz de impressionar somente aqueles de intelectualidade mais do que sofrível.

O discurso de Presidente no Congresso foi curto e conciliador. Já o vice general Mourão não discursou e deve ter confundido o momento de seu juramento com a leitura da Ordem do dia, pois seu vozeirão volumoso e firme fez tremer as paredes do Congresso.

Já no Parlatório, onde receberia a faixa presidencial de Temer, Bolsonaro mostrou-se menos conciliador. No discurso dirigido aos milhares de apoiadores reunidos nas proximidades do Congresso, voltou a ser o Bolsonaro dos palanques, agressivo e desafiador, prometendo libertar o país do socialismo para fazer um governo sem as amarras da ideologia.

Deve ter-se esquecido, no entanto, da descortesia diplomática do Brasil para com Cuba, Venezuela e Nicarágua, que convidados para a posse, foram desconvidados em seguida, certamente por motivos ideológicos. Se a coerência estivesse na ordem do dia, Arábia Saudita e China também deveriam ter sido eliminados da lista de convidados.

O coquetel no Itamaraty para festejar os convidados para a posse, constituiu-se um sucesso. Com mais de 4 mil participantes, foi passarela para o desfile de figuras carimbadas da direita internacional, como o premier israelense Bibi Netanyahu, o presidente chileno Sebastian Piñera, o primeiro ministro da Hungria, Victor Órban, e o Secretário de Estado norte americano, Mike Pompeo.

Do campo socialista, somente o presidente da Bolívia, Evo Morales, reuniu a coragem cívica necessária para enfrentar a posse em Brasília.

Bolsonaro conta com alguns excelentes ministros em sua equipe. A nós, cabe torcer para que este governo tenha a força, persistência e sabedoria para conduzir o país ao porto seguro que merece.

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