A tragédia das labaredas

Finalmente aconteceu o que parecia impossível: conseguiu-se uma raríssima unanimidade no país, obviamente não de cunho ideológico, mas em torno deste detestável 2020, que todos concordam como penoso e difícil, merecendo ser erradicado de nosso calendário.

A começar por esta pandemia que se abateu sobre o mundo, já tendo cobrado a vida de quase 150 mil brasileiros e infectado nada menos de 4,5 milhões de cidadãos, além de virar nossas vidas de pernas para o ar, impondo-nos sufocantes máscaras, uma semi-reclusão.

Como se ainda não bastasse, vemo-nos obrigados a presenciar o Pantanal e a Amazônia em chamas, que ameaçam transformar em carvão a nossa floresta e exterminar uma das mais ricas e variadas faunas do planeta.

Curiosamente, o governo enxerga os acontecimentos através de um potente filtro cor de rosa, pois enquanto uma chuva negra despeja a fuligem das queimadas, nosso presidente insiste em afirmar que “o Brasil é um exemplo na preservação do Meio Ambiente”. Certamente vive num mundo paralelo!

Bolsonaro nunca demonstrou o menor interesse em preservar o “Pulmão do Mundo” pois os seus planos consistem em aculturar os indígenas e explorar economicamente a Amazônia, medidas que “tirariam a população da pobreza”, segundo o seu raciocínio. Negacionista, Bolsonaro não acredita no aquecimento global, tampouco que seja fomentador das mudanças climáticas que explicam incêndios, vendavais e chuvas torrenciais ao redor do mundo.

Assim que empossado, tratou de enfraquecer e desmantelar os mecanismos responsáveis pela preservação ambiental, demitindo quadros técnicos, inviabilizando órgãos de combate ao desmatamento e às queimadas, anulando multas punitivas, reduzindo verbas orçamentárias, enfim, criando um ambiente propício para que grileiros, garimpeiros e madeireiros ilegais invadissem a Amazônia e iniciassem a destruição que nos dias atuais é motivo de protestos do mundo civilizado.

Entenda-se que os protestos internacionais se referem unicamente ao descaso e irresponsabilidade por parte do governo na condução da política ambiental em nosso país.

Na última terça feira, o discurso do presidente brasileiro inaugurou a 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas com uma narrativa fantasiosa, recheada de meia verdades e inverdades, mas mesmo assim aplaudida como “fantástica” e “perfeita” pelos membros do governo e seguidores. 

Com referência ao Meio Ambiente, Bolsonaro destacou que “estamos sendo vítimas da mais brutal campanha de desinformação do mundo” e que as “imensas riquezas da Amazônia explicam os interesses escusos das organizações nacionais e internacionais, aproveitadoras e antipatriotas, que agem com o objetivo de prejudicar o governo e o Brasil”.

Culpou índios e caboclos pela devastação das queimadas, quando sabemos que a maior parte da destruição deve ser debitada ao agronegócio e aos predadores ilegais.

Este enfoque distorcido da realidade ambiental pelo governo poderá custar muito caro ao país, pois os mais importantes membros da União Europeia já anunciaram que não darão o seu aval ao acordo com o Mercosul, sob as atuais condições desastrosas da política ambiental de Bolsonaro.

Os primeiros sinais de boicote aos produtos brasileiros também já se fazem ouvir na Europa, enquanto  por estas bandas, a floresta continua ardendo.               

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