O calcanhar de Aquiles

Desde que se instalou no Planalto, Bolsonaro tem sido alvo de duras críticas por sua permissiva política ambiental na Amazônia, que incentiva desmatamentos, queimadas e incursões do agronegócio, do garimpo e de madeireiros, além de um exército de missionários evangélicos, decidido a conquistar para as suas fileiras pentecostais as almas dos 20 milhões de nativos que habitam a Amazônia legal.

Governos europeus têm denunciado com regularidade o desmantelamento planejado da política ambiental brasileira, num flagrante desrespeito aos compromissos assumidos com a adesão ao Acordo de Paris, instrumento mor no combate ao aquecimento global e suas consequências.

Como instrumento de pressão, a União Europeia tem ameaçado com boicotes aos produtos brasileiros bem como uma rejeição ao ainda não efetivado acordo de livre comércio com o Mercosul.

Da mesma forma, a Organização das Nações Unidas tem se mostrado profundamente preocupada pela ausência de uma consistente política ambiental, enviando o seu alto comissário Buskat Turbut ao Brasil para estudar a situação “in loco”. 

Em seu relatório, constata que “se deixarem sem controle, a situação no Brasil se transformará não apenas em uma catástrofe nacional, mas também numa de repercussão global, incluindo a destruição de nosso clima, pois o Brasil está num caminho íngreme da regressão da sustentabilidade e dos Direitos Humanos.”

Na leitura das críticas internacionais, o governo abraçou a tese herdada dos generais do movimento de 1964, que reza que o interesse pela Amazônia pouco tem a ver com o clima, mas com a cobiça por suas riquezas, o que representaria um grave problema para a soberania nacional

Imbuído neste contexto, o governo patrocinou na selva amazônica e cidades adjacentes um dispendioso exercício de guerra simulada, que reuniu 3,8 mil militares. O evento mereceu a presença de nosso ministro da Defesa, do comandante do Exército, do ministro das Relações Exteriores e do secretário de Estado norte americano Mike Pompeo.

As percepções distorcidas e conflitantes da crise ambiental por nossos governantes constituem um exemplo contundente da falta de um projeto ambiental consistente e da absoluta superficialidade com que o assunto é tratado.

Enquanto que na abertura dos trabalhos da assembleia geral da ONU o presidente afirmava que “a preservação ambiental no Brasil é um exemplo para o mundo”, o vice-presidente Hamilton Mourão sentenciava que “os protestos internacionais são de ordem ideológica contra o governo de Bolsonaro”. Já o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, argumentava que o “governo Bolsonaro ainda não encontrara tempo para cuidar da Amazônia. Um buquê de deboches para um país já classificado como pária ambiental.

Brasília ainda não entendeu que estamos em pleno “século verde”, onde os valores de Greta Thunberg se tornaram uma realidade, incorporada a patrimônio dos governos que se dizem responsáveis.

A ciência, por sua vez, tem sinalizado constantemente que os sempre mais frequentes desastres ecológicos só poderão ser mitigados através de um contencioso e criterioso tratamento da natureza, sonho impossível com um presidente que despreza a ciência, nega o aquecimento global, considera a pandemia uma gripezinha, desqualifica o uso de máscaras e a vacinação generalizada da população e promete daqui pra frente só pensar “naquilo”: a sua reeleição em 2022.

Artigos Semelhantes

  • O presidente que se cuide, pois esta trilha desemboca num precipício!

    Ninguém mais dúvida de que nosso país se encontra em estado de ebulição. Boa parte da população anda desiludida com o governo em Brasília que, apesar dos milhares de óbitos, continua com um militar comandando interinamente o Ministério da Saúde, mostrando-se também ressentida com a falta de uma política unificada e consistente no combate ao…

  • O cataclisma

    Impossível negar que neste primeiro turno das eleições presidenciais, um verdadeiro tsunami conservador varreu o Brasil de ponta a ponta, propiciando ao candidato da extrema direita, o capitão reformado Jair Bolsonaro (PSL), uma retumbante vitória sobre os outros candidatos, entre os quais o socialista Fernando Haddad, do PT, partido há décadas no poder e principal…

  • Turbulências de maio

    O mês de maio iniciou-se a todo vapor, prometendo agitos políticos, recheados de surpresas e emoções. Já no primeiro dia do mês, os bolsonaristas lançaram-se às ruas para solidarizar-se com seu mito e defender as jóias da coroa, intervenção militar com o próprio no trono, deposição imediata dos odiados togados do Supremo Tribunal Federal e…

  • Lula livre

    O inesperado retorno, ainda que temporário do ex-presidente Lula ao cenário político nacional foi, certamente, o assunto impactante da semana que passou. O “frisson” foi generalizado, a reação sempre diferente, dependendo da orientação política partidária de quem recebia a nova: para os petistas e simpatizantes, finalmente fazia-se justiça, enquanto que para bolsonaristas, tudo se resumiu…

  • No fio da navalha

    Não temos mais dúvidas de que nos encontramos à beira de uma perigosa crise institucional. As causas são inúmeras, mas poder-se-ia destacar a insegurança momentânea do Bolsonarismo, que vê os seus abusos autoritários confrontados com absoluta firmeza e determinação pelas instituições democráticas, bem como por sua inabilidade total em digerir e administrar a visível queda…

  • A posse

    Na segunda semana de outubro, aconteceu na Sociedade Beneficente a cerimônia de posse da diretoria da Associação Empresarial de Brusque (Acibr), presidida pelo empresário Halisson Habitzreuter, reeleito para um segundo mandato a terminar em 2019. O evento, prestigiado pela nata do empresariado local e das cidades vizinhas, reuniu certamente dois terços do PIB da região….

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *