Isolado

Jair Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto com um portifólio recheado de votos, que o incumbiam de alavancar profundas reformas no país, mudanças que pudessem proporcionar à exaurida população um futuro mais seguro e promissor.

Intrinsecamente avesso às esquerdas em geral e ao petismo em particular, Bolsonaro prometeu virar o país de pernas para o ar pois acredita piamente que todos os males do mundo têm sua mesma origem: o socialismo, em suas variadas colorações.

O seu exacerbado populismo nacionalista leva seus abnegados seguidores ao delírio, ao mesmo tempo em que semeia o temor entre aqueles que não se entusiasmam com sua visão do mundo, em grande parte plagiada de seu ídolo, o presidente americano Donald Trump.

Impulsivo e temperamental, o presidente não avalia os conceitos antes de verbalizá-los, o que tem causado não poucos transtornos ao aparelho governamental e constrangimentos na política externa.

Ninguém duvida de que o atentado à faca em Juiz de Fora acabou sendo uma ducha de água fria na meteórica ascensão presidencial que, com três complexas intervenções cirúrgicas, viu-se afastado do epicentro do poder e jogado numa cama de hospital, na parte sul da cidade de São Paulo.

O núcleo duro do governo Bolsonaro, seus familiares e os militares no Planalto não fazem segredo de que preferem ver o vice-presidente Hamilton Mourão longe do exercício da interinidade e estão absolutamente convictos que, mesmo internado e longe da capital federal, Bolsonaro tem condições de governar o país.

Desta forma se explicam e justificam as centenas de imagens do presidente despachando no leito do hospital, videoconferência com o general Heleno, sonda gástrica e gelatina lilás, os selfies, enfim, uma insofismável demonstração de que “estou aqui, pronto e apto para desempenhar as funções para as quais fui eleito”.

O tumulto em torno do presidente chegou a tal ponto que a equipe médica resolveu dar um “chega pra lá” em Bolsonaro, que aparentemente queria transformar seus aposentos no Hospital Albert Einstein numa ala de despachos do Palácio do Planalto.

No entanto, todos sabem que a ausência do presidente da República de Brasília acaba produzindo um vácuo de poder, eventualmente uma fonte de frustração e descontentamento da equipe governamental e da população.

Decisões prioritárias atrasar-se-ão enquanto a interação entre Executivo, ministério e Legislativo permanecerá travada. Ausente, o presidente também ficará impedido de usar o seu enorme capital político de recém-eleito, que certamente lhe daria condições de virar a página e aprovar as reformas previstas.

O núcleo duro do governo ficou extremamente incomodado com a performance midiática do vice-presidente, general Hamilton Mourão, durante os dois períodos em que exerceu a interinidade, na ausência do presidente. Culto, ponderado, pragmático e oportunista, Mourão tem tentado se mostrar como uma figura mais bem preparada do que o presidente eleito, caso uma crise venha a desestabilizar o governo.

Também tem-se apresentado como contraponto do presidente: enquanto Bolsonaro ofende e maltrata a imprensa, o vice afaga, concede entrevistas e recebe jornalistas em seu gabinete; enquanto Bolsonaro garante como definitiva a decisão de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, Mourão recebe delegações árabes e afirma o contrário.

Com uma frequência sempre maior, as duas mais importantes figuras do Executivo nacional têm defendido posições antagônicas, o que afeta a imagem de eficiência e credibilidade do governo perante nossa população e o exterior.

Até o momento, Mourão tem-se movimentado sem transgredir, com maior gravidade, os parâmetros éticos estabelecidos para o importante cargo e espera-se que com a volta de Bolsonaro para Brasília, ambos encontrem uma estratégia comum para servir ao país.

Para o bem geral da nação, não haverá outra alternativa.

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